Campus Darcy Ribeiro sedia a 14ª edição do Copene, evento que reúne milhares de acadêmicos do Brasil e da América Latina
Brasília se prepara para receber um dos encontros acadêmicos mais expressivos do calendário nacional. Entre os dias 28 e 31 de julho, o campus Darcy Ribeiro, da Universidade de Brasília, sediará o 14º Congresso Nacional de Pesquisadores(as) Negros(as), conhecido como Copene. A organização espera reunir milhares de intelectuais, acadêmicos e estudiosos negros brasileiros, além de pesquisadores vindos de outros países da América Latina.
Para quem não acompanha de perto o calendário acadêmico, uma pergunta natural surge diante do anúncio: por que um congresso científico específico sobre pesquisa negra ganhou tamanha dimensão a ponto de se tornar um dos maiores eventos da área no país? A resposta tem relação direta com a trajetória das políticas afirmativas nas universidades brasileiras e com o espaço que a produção científica de pesquisadores negros conquistou nas últimas décadas.
O que é o Copene e o que está previsto na programação
O Copene é organizado pelo Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da própria UnB, pela Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as) e pelo Consórcio Nacional de Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros. Segundo a divulgação oficial do evento, o congresso funciona como um espaço estratégico para a difusão da produção científica, o fortalecimento de redes de pesquisa, a valorização dos saberes afrodiaspóricos e a formulação de propostas voltadas à promoção da equidade racial e da justiça social.
A programação dos quatro dias de evento inclui minicursos, oficinas, painéis e mesas redondas, além do lançamento de dezenas de livros produzidos por pesquisadores da área. Esse formato amplo é uma característica histórica do Copene, que ao longo de suas edições anteriores se consolidou como o maior evento científico do país voltado a debates sobre relações étnico-raciais em diferentes campos do conhecimento, do local ao global.
Em 2026, o congresso tem como tema central a contribuição do pensamento afrodiaspórico para a democracia brasileira. A edição também marca os 55 anos da primeira evocação ao 20 de novembro como data de referência para o movimento negro, realizada originalmente em Porto Alegre, em 1971. Esse recorte histórico reforça o caráter simbólico da escolha da UnB como sede, já que a universidade foi pioneira entre as instituições federais na adoção de cotas raciais, medida implementada em 2003 e hoje seguida por todas as 69 universidades federais do país.
Cotas raciais e produção científica: o pano de fundo do congresso
O Copene não acontece isolado de um debate mais amplo sobre o impacto das políticas afirmativas no ensino superior brasileiro. Segundo dados do Censo Populacional do IBGE, a proporção de pessoas pardas com curso de graduação subiu de cerca de 2,4% para 12,3% entre 2000 e 2022. No mesmo período, a fatia de pessoas pretas com diploma de nível superior passou de 2,1% para 11,7%, um avanço expressivo, embora ainda distante da representatividade da população negra no conjunto do país.
Esse movimento também aparece na pesquisa científica propriamente dita. O percentual de doutores negros à frente de grupos de pesquisa certificados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico passou de 8,1% para 22,6% no mesmo intervalo analisado pelo IBGE. Ainda assim, pessoas pretas e pardas representam 55,5% da população total do Brasil, uma proporção que segue maior do que a presença desse grupo nos espaços de liderança científica e acadêmica. O país conta atualmente com cerca de 15 mil pesquisadores negros, segundo levantamento citado pela organização do evento.
É justamente nesse contexto que o Copene se apresenta como espaço de debate sobre a manutenção e a ampliação das políticas afirmativas responsáveis por esse avanço. Ao reunir pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento em um só congresso, o evento funciona também como vitrine para uma produção acadêmica que, historicamente, teve menos espaço em congressos científicos tradicionais.
Como acompanhar e participar do evento
Quem tem interesse em participar do Copene, seja como ouvinte, seja submetendo trabalhos acadêmicos, pode consultar as informações de inscrição diretamente no site oficial do congresso. O calendário de atividades, os eixos temáticos e as normas para envio de trabalhos também estão disponíveis no mesmo canal, o que facilita a organização de quem pretende participar de algum dos quatro dias de programação.
Para universidades, pesquisadores e estudantes de graduação e pós-graduação, o Copene representa uma oportunidade concreta de contato com produção científica recente sobre relações étnico-raciais, além de networking com núcleos de estudos afro-brasileiros espalhados por instituições de todo o país. A expectativa da organização é que a edição de 2026, sediada na capital federal, tenha um dos maiores públicos da história do evento, reforçando o papel da UnB como referência nacional em pesquisa sobre equidade racial e justiça social no ambiente acadêmico.