Marcello José Abbud, especialista em soluções ambientais e diretor da Ecodust Ambiental, atua diretamente em um campo que lida cotidianamente com as consequências da negligência coletiva na gestão de resíduos. Embora os debates sobre impacto ambiental costumem girar em torno de emissões de carbono, desmatamento e poluição hídrica, o tema dos resíduos sólidos mal destinados raramente ocupa o centro da discussão, apesar de estar conectado a todos esses problemas.
Atualmente, o Brasil ainda tem mais de 3.000 municípios que destinam resíduos de forma inadequada, segundo dados do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil. Isso significa lixões a céu aberto, aterros sem impermeabilização e queimas irregulares, práticas que contaminam o solo, os lençóis freáticos e a atmosfera de forma silenciosa e persistente.
Contaminação do solo e da água: um passivo que cresce
O chorume, líquido produzido pela decomposição de resíduos orgânicos, é um dos contaminantes mais agressivos gerados por aterros sem tratamento adequado. Ele carrega metais pesados, compostos orgânicos tóxicos e patógenos que podem percolar pelo solo e atingir aquíferos subterrâneos utilizados para abastecimento humano.
Conforme aponta Marcello José Abbud, o problema é que a contaminação raramente é visível ou imediata. Isso porque ela se acumula por anos, muitas vezes por décadas, antes de ser detectada. E, quando é, o custo de remediação é exponencialmente maior do que teria sido o custo de preveni-la com destinação adequada desde o início.

Emissões de metano: o clima também paga a conta
A decomposição anaeróbica de resíduos orgânicos em aterros e lixões gera metano, um gás com potencial de aquecimento global cerca de 80 vezes maior do que o CO₂ em um horizonte de 20 anos. O setor de resíduos responde por uma parcela significativa das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, uma contribuição que poderia ser reduzida drasticamente com tecnologias de captação e aproveitamento do biogás já disponíveis no mercado.
Marcello José Abbud e a equipe da Ecodust Ambiental têm trabalhado com soluções que transformam esse passivo ambiental em ativo energético, capturando o biogás gerado nos processos de decomposição e convertendo-o em energia elétrica ou gás combustível.
Saúde pública: o elo mais ignorado
A proximidade de comunidades vulneráveis a lixões e aterros inadequados está associada a taxas mais altas de doenças respiratórias, infecções gastrointestinais e contaminação por metais pesados. Na prática, catadores que trabalham nesses locais sem equipamento de proteção adequado estão expostos a riscos ocupacionais graves, que raramente aparecem nas estatísticas oficiais de saúde do trabalho.
De acordo com Marcello José Abbud, o impacto é desproporcionalmente concentrado nas populações de menor renda, que também são as que menos têm acesso a sistemas de coleta e tratamento adequados. Sendo assim, essa disparidade se consolida como uma injustiça ambiental de dimensão social evidente.
Precificação do dano: o argumento econômico que falta
Ainda, como aponta Marcello José Abbud, um dos motivos pelos quais a destinação inadequada persiste é que seu custo real raramente é contabilizado. Os gastos com saúde pública, remediação ambiental, perda de produtividade agrícola e desvalorização imobiliária gerados pela má gestão de resíduos não aparecem nas planilhas dos contratos de limpeza urbana.
Quando esses custos são internalizados, o argumento econômico a favor da destinação correta se torna irrespondível. O lixo mal destinado não é barato: ele apenas transfere sua conta para outros setores e para as gerações futuras.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez