Alfredo Moreira Filho, empresário, vivenciou na prática como a tentativa de aplicar tecnologias desenvolvidas para o sul do Brasil em solos de várzea amazônica resultou em fracasso retumbante, demonstrando os limites da padronização cega e a necessidade de adaptação local. Impor modelos padronizados de sucesso de outras regiões sem considerar as variáveis locais é uma receita para o prejuízo na gestão de projetos complexos. A verdadeira competência gerencial está em adaptar a execução à realidade do terreno, não em forçar o terreno a se adequar ao manual.
O projeto que desafiou a lógica da várzea
A Construtora Andrade Gutierrez se comprometeu com o governador do Amazonas a produzir milho em grande escala, visando reduzir o preço da ração para suinocultura estadual. O local escolhido foi a ilha da Marchanteria, devido ao solo de várzea dominante e rico em nutrientes. Pelo lado da fertilidade do solo, tudo parecia adequado.
Os problemas surgiram quando se considerou o desmatamento do terreno e o plantio devido à cheia do rio Amazonas. O desmatamento precisava ser feito mecanicamente com máquinas pesadas de esteira, e o prazo era exíguo, porque o rio já estava enchendo. Teriam dois meses, no máximo, para proceder ao preparo do terreno e fazer o plantio, um desafio logístico que Alfredo Moreira Filho acompanhou com preocupação crescente.
A tecnologia do sul em solo amazônico
Tratores do tipo D6 e D8, todos com esteiras de sapatas largas para não afundarem na várzea, foram deslocados para a ilha. Treepushers foram equipados nessas máquinas para empurrar as árvores, alcançando-as entre seis e oito metros de altura, facilitando a derrubada. Pás-carregadeiras, tratores de pneus, arados e máquinas para transportar os troncos compunham aquela patrulha mecanizada.
A iluminação daquela vila de peões foi capaz de iluminar toda a área a ser trabalhada dia e noite. Parecia que uma cidade tinha brotado em pleno meio do rio Amazonas. A ilha da Marchanteria não mais tinha noite, de tão iluminada.
O fracasso que ensinou mais que os sucessos
O plantio foi feito e as plantas de milho cresceram. A insolação, o solo fértil e a umidade favoreceram o desenvolvimento vegetativo. Junto com as plantas de milho, também cresciam, abundantes, o mato e as ervas daninhas. Houve uma trabalheira de capina nunca vista em outros lugares, e Alfredo Moreira Filho acompanhou de perto a escalada dos problemas que começavam a se acumular.
Ao mesmo tempo, as águas do rio Amazonas subiram e começaram a inundar a área plantada. Todo o terreno cultivado foi rapidamente encoberto pela cheia. As águas da cheia anual subiram mais cedo do que o esperado. Em paralelo, periquitos-verdes, papagaios e uma dezena de pássaros e insetos passaram a frequentar o ambiente e a se alimentar com o milho que brotava.
A colheita que precisaria ser feita de canoa
À medida que as espigas começavam a secar e permitiam a colheita, os grãos passaram a germinar devido à umidade e às chuvas que assolavam o milharal. Simultaneamente, pássaros e insetos, ao mordiscarem as espigas ainda verdes, abriam portas para doenças que infestaram os grãos de milho. Espantalhos foram distribuídos no milharal, mas sem qualquer resultado prático. Os papagaios e periquitos faziam dos espantalhos poleiros e pousavam sobre todos eles, transformando a tentativa de proteção em motivo de ironia.
Não havia o que fazer. Colher o pouco do milho que sobrara também era uma missão inglória, porque as águas já alcançavam mais de meio metro acima do nível do solo agricultado com o milharal. A colheita só poderia ser feita de canoa, algo inédito e totalmente inviável para uma operação mecanizada de grande porte.
Alfredo Moreira Filho acompanhou de perto o desfecho daquele que seria o tão esperado case de demonstração de mecanização das várzeas amazonenses, mas que se revelou um retumbante fracasso. Ficou claro que a agricultura no Amazonas não pode ser feita sob as mesmas tecnologias do sul do Brasil. Faltava tecnologia adaptada à realidade amazônica, e essa lição custaria caro aos envolvidos no projeto.